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Adultez Emergente: jovens demais para ser adultos, velhos demais para ser adolescentes

  • Foto do escritor: Laís Lima
    Laís Lima
  • 6 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 7 de out. de 2025

A crise dos 20 e poucos anos como paradoxo de uma geração

Quando somos crianças, acreditamos que, aos 18 anos, já teremos casa própria, um carro e liberdade para fazer o que quisermos. Permito-me dizer que sonhar com a fase adulta é um evento canônico na infância de todos nós. Na adolescência, então, a vontade de crescer só aumenta, pois queremos dar tchau aos nossos pais e descobrir o mundo. Uma pena que a realidade não corresponde a essa fantasia. Chegamos à vida adulta carregados de conhecimento, horas e horas de estágio não remunerado, pressão dentro de casa, mas com um desafio muito maior em mente: a incerteza do nosso próprio futuro. Infelizmente, este é o retrato de uma geração suspensa entre o privilégio de adiar responsabilidades e o peso de não encontrar segurança.

Esse sentimento de não pertencer a lugar nenhum foi carinhosamente nomeado de “adultez emergente” pelo psicólogo Jeffrey Arnett. Este fenômeno nada mais é do que a transição da adolescência para a idade adulta, em que os jovens costumam adiar os compromissos da maioridade. Algo talvez impensável para as gerações anteriores, que se viam na obrigação de amadurecer muito mais cedo do que a nossa. Acredito que esta seja a crítica que nós, geração Z, mais ouvimos dos nossos pais. De fato, o medo do desconhecido nunca foi tão forte em uma geração. Os boomers e a geração X se sacrificaram muito para que tanto os millennials quanto a geração Z tivessem uma vida mais estável. Não é à toa que estas duas são as gerações que mais tiveram a oportunidade de ingressar em uma universidade. O mercado de trabalho encontra-se, portanto, completamente saturado. Tornamo-nos qualificados, mas a concorrência é extremamente acirrada e as oportunidades cada vez mais limitadas. Os melhores cargos ainda são ocupados pelos mais velhos, enquanto o que nos resta são subempregos ou, na melhor das hipóteses, um cargo de exploração em nossa área cujo salário não compensa. É aí que as críticas se intensificam.

“A geração Z não gosta de trabalhar.”

Somos os primeiros a entrar no mercado de trabalho depois do boom tecnológico. Somos os primeiros a ter acesso a informações do mundo inteiro 24 horas por dia. Até arrisco dizer que somos a primeira geração que tenta priorizar a saúde mental em um mundo tão caótico. Buscamos, mais do que as anteriores, conciliar a vida profissional com a vida pessoal. Este, talvez, seja um dos traços mais abominados pelas organizações. Depois de tanto tempo explorando inúmeras pessoas em situações precárias, quem somos nós para desafiar as regras tradicionais do trabalho?

De fato, no momento não somos grande coisa. Não somos nem a maioria, até porque essa não é uma experiência universal. Para muitos, não existe espaço para a crise dos vinte e poucos, pois as responsabilidades da vida adulta já chegam antes mesmo da maioridade. Ter dúvidas sobre o próprio futuro e postergar responsabilidades é, ironicamente, um luxo. Entretanto, reconhecer isso não invalida a angústia de quem vive a fase. Gosto de classificar isso como um privilégio paradoxal. Não fomos pressionados a assumir responsabilidades desde cedo, como em contextos de pobreza extrema, mas também não nascemos em berço de ouro, com o futuro inteiramente traçado. Estar nessa posição cria uma sensação de dívida, pois tivemos a chance de estudar — então, como ainda não conquistamos nada?

Estamos atrasados em relação ao resto do mundo.

Se nos compararmos com os nossos pais, temos o sentimento de que somos incompetentes. Aos 25, eles já tinham casa própria e uma família formada. Porém, hoje em dia, essas realizações parecem estar cada vez mais distantes. Se não temos estabilidade financeira nem saúde mental, torna-se impossível construir o nosso futuro com base nos tais compromissos da vida adulta. Mas podemos sonhar — e as redes sociais estão aí para isso. A cada deslizar de tela, somos expostos a versões editadas da vida dos outros. Pode ser o emprego dos sonhos, o relacionamento ideal, a viagem perfeita, tudo isso para mostrar que está tudo sob controle. Logo, essa instabilidade da vida fora das telas (que poderia ser vivida como uma fase de descobertas) vira uma sensação de fracasso. Afinal, se todos parecem “adiantados”, qualquer atraso pessoal ganha o peso de uma falha irreparável.

Somos uma geração fadada às incertezas, em que todos ao nosso redor parecem estar prosperando, enquanto nós ficamos “para trás”. Herdamos dos nossos pais a chance de prolongar a juventude, mas não herdamos a mesma clareza de futuro. Crescer deixou de significar “chegar lá” e passou a ser uma experiência contínua de tentar encontrar o que, afinal, significa ser adulto.

A autora escreve em português do Brasil

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