Não precisamos mais queimar livros
- Laís Lima

- 6 de fev.
- 4 min de leitura
Basta parar de lê-los para que o pensamento crítico desapareça por conta própria.
Durante a pandemia, criei um clube do livro com alguns amigos e uma das obras escolhidas foi o clássico Fahrenheit 451, do autor norte-americano Ray Bradbury. Nessa distopia, acompanhamos uma sociedade completamente emburrecida pela televisão e entorpecida por tranquilizantes. Além disso, todos os livros foram proibidos.
Mas não pense que isso foi imposto por um governo autoritário. É justamente isso que diferencia a sociedade de Bradbury das de Admirável Mundo Novo ou 1984. Aqui, a escolha foi coletiva. As pessoas abriram mão da leitura em troca de um mundo supostamente sem conflitos.
Sabemos que, desde que o mundo é mundo, governos autoritários repudiam a leitura porque ela nos obriga a pensar. E pensar é, no fim das contas, a única coisa que nos torna humanos. Fahrenheit 451 nos apresenta algo talvez ainda mais inquietante: uma sociedade em que ninguém precisou proibir os livros, porque a própria população deixou de desejá-los.
E qual a diferença entre o universo de Bradbury e o momento em que estamos? Sinceramente, acho que pouca. Quer dizer, nós ainda não abrimos mão completamente da literatura, mas os sinais são preocupantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a proporção de pessoas que lê por prazer caiu mais de 40% nas últimas duas décadas. No Brasil, a situação também não é das melhores. Alguns estudos apontam que menos da metade da população (cerca de 47%) leu pelo menos um livro nos últimos três meses, e esse percentual já foi maior no passado.
Bom, mas não podemos perder as esperanças. Em Portugal, dados atuais revelam uma ligeira subida no número de pessoas que afirmam ter lido pelo menos um livro no intervalo de um ano – cerca de 76% em 2024, contra 73% no ano anterior.
De qualquer forma, mesmo com essa subida sutil na realidade portuguesa, não podemos afirmar que o declínio da literatura foi apenas uma fase. Fazer com que as pessoas leiam na era digital ainda é um grande desafio. Nos acostumamos a consumir muita informação ao mesmo tempo, sempre de forma rápida e fácil. Cansamos de ir atrás, porque agora basta perguntar ao ChatGPT e ele nos entrega tudo mastigado.
Pesquisar no Google passou a ser quase o equivalente moderno de folhear uma enciclopédia empoeirada. Assistir a um vídeo no YouTube com mais de dez minutos sem clicar no 2x chega a soar tão trabalhoso quanto assistir a The Godfather inteiro em uma única tarde.
Nosso cérebro já se aposentou antes mesmo de nós.
Algo que as pessoas talvez tenham esquecido – ou simplesmente nunca tenham sabido – é que a habilidade de ler e interpretar letras e números não faz parte do pacote de instintos humanos. Ler exige estímulo. Caso contrário, perdemos a capacidade de construir pensamento crítico. Essa habilidade é um esforço da mente humana que vem se desenvolvendo há cerca de seis mil anos. Não dá para simplesmente largar tudo isso e dar esse desgosto aos nossos ancestrais, não é?
A literatura nunca foi sobre facilidade. Ler exige tempo, silêncio, concentração e, principalmente, disposição para o desconforto. Livros nos confrontam, nos fazem parar, pensar e, muitas vezes, discordar. Talvez seja justamente por isso que ler esteja se tornando um ato cada vez mais raro – e, ao mesmo tempo, cada vez mais necessário. Porque, diferente dos resumos, dos vídeos acelerados e das respostas prontas, a literatura não nos poupa do esforço.
Nos últimos meses, comecei a refletir sobre o chamado “emburrecimento coletivo” e confesso que senti medo de fazer parte desse movimento. Leio por puro prazer desde os oito anos de idade. Sempre tive incentivo dentro de casa e nunca abandonei o hábito por completo. Ainda assim, percebi que, desde que a tecnologia chegou às minhas mãos, esse costume diminuiu – e muito.
Tentei reacender a chama da leitura durante a pandemia e, até certo ponto, funcionou. Mas quando a vida voltou ao normal, não consegui mais conciliar o tempo de leitura com a vida acadêmica e social. O curioso é que tempo para as redes sociais nunca faltou. Isso já está tão impregnado no nosso cotidiano que nem me passou pela cabeça substituir alguns momentos de tela por um livro.
Quando percebi que estava ficando com preguiça de pensar por mim mesma, entendi que precisava fazer algo a respeito.
Voltei a ler. Pouco, mas voltei. Passo menos tempo com o celular na mão e mais tempo com um livro, seja ele físico ou digital (afinal, um Kindle pode ou não ser considerado uma tela?). Essa escolha me fez enxergar melhor tanto as coisas boas quanto as ruins da vida.
Um livro tem o poder de me transportar para realidades diferentes, tempos diferentes, apresentar novas culturas e me fazer compreender pessoas com pensamentos opostos aos meus. Consigo desenvolver melhor minhas próprias opiniões, meu lado político e, principalmente, minha visão de mundo. E é exatamente isso que está nos fazendo falta.
Espero que o futuro não seja tão sombrio quanto Fahrenheit 451, Admirável Mundo Novo, 1984, O Conto da Aia… Se eu for listar todas as distopias que tentam prever o nosso amanhã, nunca mais paro de escrever. Resta torcer para que a humanidade passe por algum tipo de revolução contra o próprio “emburrecimento” antes que a ficção científica deixe de ser apenas ficção. Mas isso só acontece se, antes de tudo, voltarmos a ter disposição para pensar. A autora escreve em português do Brasil.



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