Do Universo à Palhinha
- Tomás Ramos

- 29 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 6 de fev.
Há perguntas e conceitos que cruzam culturas, conversas no café e até nas almoçaradas de família. Do misticismo oriental ao comportamento lusitano no estrangeiro, passando pela geometria de objetos do nosso dia a dia, são os temas para a estreia do “Quem Sabe, Sabe!”. Uma nova rúbrica que tem como objetivo responder a perguntas insólitas, complexas e intrigantes e de as elucidar, ou pelo menos tentar…
Tomemos, por exemplo, o karma. Importado das doutrinas antigas da Índia, descreve a ideia de causa e efeito, uma espécie de física moral aplicada à vida. Para alguns é um programa de fidelidade: faz boas ações e recebe boas recompensas. Para outros, é apenas uma forma educada de dizer “o que vai, volta”. Há ainda quem o usa como explicação vantajosa quando algo corre mal: “Deve ser o karma, porque não ajudei a velhinha a atravessar a rua.” E, claro, a ciência, sempre pronta a cortar o barato, descreve-o apenas como consequência natural das ações. No fim, talvez seja melhor fazer o bem por fazer, sem esperar que o universo nos ofereça um vale de desconto para abastecer.
Mas se há tema que revela mais sobre nós, é o modo como nos comportamos perante o desconhecido… linguístico. Quem nunca foi alvo de uma pergunta por parte de um estrangeiro, e começa a responder mais alto, como se o volume resolvesse a barreira da língua? É um fenómeno universal, mas em Portugal ganha traços quase teatrais. Somos apaixonados pela fala, gesticulamos bastante, dedicamo-nos a tentar ser entendidos. Elevar o tom parece quase um ato de sinceridade, uma forma de mostrar esforço nos ínfimos segundos de interação. Muitas vezes só aumenta a frustração e o ruído. Talvez seja altura de trocar o volume por recursos mais eficazes; uns desenhos, palavras mais simples, gestos mais claros… ou, em último caso, a ajuda artificial que já traduz parte do mundo com um simples toque.
E depois há questões que nos desafiam não pela profundidade espiritual ou pela sensibilidade cultural, mas pela sua aparente insignificância. Nada mais, nada menos, como uma eterna discussão sobre quantos buracos tem uma palhinha. Dois, dirão os pragmáticos. Um, dirá quem já estudou topologia o suficiente para arruinar os tais almoços às duas da tarde. Afinal, um túnel tem duas aberturas, mas continua a ser um único buraco contínuo. No fundo, esta pergunta lembra-nos de como podemos complicar o simples com a mesma facilidade com que simplificamos o complexo.
Seja sobre o destino, sobre o volume da voz ou sobre a anatomia metafísica de uma palhinha, talvez tudo se convergirá no mesmo. E é precisamente nisso que reside a beleza destas pequenas perguntas que não sabíamos, que queríamos saber.


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